Quarta-feira, 20 de Maio, 2009
“Nos olhos do touro” – A Tourada Lusa
“Destruí os símbolos e morri com eles”
A beleza da tourada Lusitana, nas suas várias nuances, com os seus vários intervenientes, os seus artistas, os seus espaços... criam um espectáculo onde as origens se perdem para lá de qualquer registo. Por si só este facto é assinalável. Haverá alguma razão especial para tal longevidade? Na realidade pouco importam os motivos que, e como tudo, certamente, serão vários; o que importa é que esta tradição existe de uma forma muito especial em terras Lusas.
Talvez, até os próprios intervenientes da dita tourada, tenham perdido contacto com os vários simbolismos envolvidos neste espetáculo-representação. Parecia fazer-se luz quando descobri que a tourada é uma representação do homem lutando com o seu próprio ego, as tendências animais inferiores. É a luta do ser que busca a divinização, a elevação espiritual; mas tem de combater, transformar, transcender o seu ego.
Os símbolos estão lá: o dito touro, com as suas características animais e o toureiro, com as suas vestes de luz. As bandarilhas só podem representar o domínio e o poder do toureiro sobre as ditas tendências inferiores.
Numa visão simbólica mais lata, como representação da inspiração que um único homem transmite a outros, os próprios forcados são a prova última desse domínio e poder onde aquele que enfrenta primeiramente o touro será seguido por outros nessa luta inevitável. Mas não é sempre assim? Não terá cada homem de enfrentar o seu próprio ego? Certamente que outros seguirão o seu exemplo, inspiração, coragem, tenacidade, valentia...destemor pela própria vida… e claro que novas qualidades serão adicionadas, pois cada ser humano é único em si mesmo.
A interrogação delicada surge sempre quando vem a questão de matar ou não o touro. Considerando esta abordagem a resposta é redondamente “não”, o que é uma mais-valia para a Tourada Lusa, que não aprova tal prática e pelo motivo de que o dito ego, ao contrário do que muitos pensam, não é algo que se possa matar! Esta questão um pouco complexa, mas dizem os Mestres Realizados que a Alma é sempre destituída de qualquer impureza. Eterna, Imortal e Plena em Felicidade, a Alma espera pela realização daquilo que É. São a mente e o corpo (o verdadeiro touro a transcender), que nas suas tendências inferiores, na sua ignorância perde o contacto com a Alma e as suas características!!!
Dando um passo em frente, será legitimo perguntar: “Deverá ou não o touro sofrer?” Novamente a resposta é “não”, e os próprios símbolos parecem falar por si mesmo. Se o ego não se mata também não sofre! Parece quase ridículo pensar num ego a sofrer. Então quem sofre? Sofre o toureiro pois é ele que se quer transformar e não o dito touro!
São a mente e o corpo (verdadeiros touros) do toureiro que precisam de reconhecer novamente ‘as esquecidas’ características da Alma. É esse processo de reconhecimento que leva a uma profunda transformação e que causa muitos dos desconfortos e dores, aparecendo representado na luta activa de confrontação com o touro-ego e suas tendências inferiores, que podem muito bem levá-lo nesse confronto, e não no facto de fazer sofrer um animal! Nada de realmente simbólico se encontra nesse sofrimento! O símbolo está sim na preparação do toureiro que com e sem touro se treina interna e externamente para aquando de cada confronto possa sair vencedor acima de todas as dificuldades! O Grande Guerreiro de Luz que sai vitorioso pois divinizou o seu ego!
Sendo assim parece que algumas alterações na Tourada Lusa só a enobrecerão e engrandecerão. Podem ser pensadas várias soluções, mas ocorreu-me que uma cinta colocada no dorso do touro pode muito bem ser uma solução eficaz de forma que o touro não sofra com as ditas bandarilhas. No topo da dita cinta algo semelhante a um alvo com três os quatros círculos, que poderiam ter um sistema de pontos e serviria para avaliar o desempenho do toureiro. Quanto mais próximo do centro, mais hábil e bem preparado o toureiro e mais longe de criar sofrimento desnecessário em qualquer outra parte do corpo do animal.
Esta nova atitude deveria ser motivo de contentamento geral e símbolo de qualidade, quer do toureiro, quer da tourada Lusa.
Em relação ao cavalo Luso só tenho pena de não ter um. :)
Sendo assim e com esta voga criaríamos uma ‘Tourada Ecológica Lusa’ e acima de tudo sem sofrimento, mantendo toda a beleza do seu simbolismo, que pode muito bem ser milenar e possivelmente a ser apreciada por novos públicos.
Fica a partilha de curiosidade de nunca ter assistido a uma tourada mas certamente não hesitaria a ver este, ou algo semelhante, em campo.
Outro apontamento engraçado foi o facto do dia em que este texto surge: 25 de Abril de 2009. Coincidências ou talvez não.
Aos touros, aos que partiram nesta luta e a todos os que têm perpetuado a Tourada Lusa.
Pelo fim do sofrimento!
Ventura da Luz (R.P.)